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Desilusão com o poder da internet.

Leão engole Peixe - Por Lucas Dantas*, blog do Lédio Carmona
Há pouco menos de uma semana, o ambiente no vestiário do Avaí não era o dos melhores. O clima, ainda tenso devido à goleada sofrida diante do Guarani, foi interrompido pelas palavras de Antônio Lopes que, irrevogável, deu uma bronca nos jogadores. Entre os diversos assuntos tratados no sermão, contam, estavam a maneira descompromissada com que a equipe jogou durante a partida e a necessidade de uma mudança de atitude, sob pena de inutilizar todo o esforço que resultou na ótima reação do Leão no período pós-Copa. E foi exatamente o que aconteceu. Já pela Sul-Americana, o Avaí entrou em campo sendo exatamente a antítese do time da semana passada, enfrentou o melhor time do Brasil de igual para igual e saiu do Pacaembu com uma vitória para lá de expressiva: 3 a 1. Confirmou, sobretudo, que é um time muitíssimo bem treinado por Antônio Lopes e que possui jogadores rápidos, de qualidade e, geralmente, decisivos.
O Santos, como alguns se aventuraram a afirmar, não entrou desprezando a ‘Copa’. Impossível desprezar o único título que lhe falta entre todos os campeonatos existentes. Não foi essa, a postura demonstrada por quem esteve em campo. E qualquer coisa que fuja disso é desculpa de mau perdedor. Não houve, durante todo o jogo, um único momento que pudesse servir de ‘prova’ contra os jogadores santistas. Pelo contrário. Houve até momentos muito brilhantes, geralmente protagonizados por Paulo Henrique Ganso.
No entanto, apesar de não ter sido superior, o Avaí conseguiu ser infinitamente mais eficiente.
Durante os 90 minutos em que a bola rolou passando rapidamente de uma defesa a outra, o jogo teve sempre mais a cara dos catarinenses. Por 90 minutos, o Pacaembu, que já não é a casa do Santos, foi alugado pelo Avaí. Que já tem casa. E lá espera o Santos para a segunda rodada. Na Ressacada. Onde as cobranças não vêm só do vestiário, mas também das arquibancadas. E costumam ser ainda mais eficientes.
Dica de leitura: Veneno remédio: o futebol e o Brasil
Segue a sinopse da obra, retirada do site da editora Companhia das Letras:
Os estudos de grande abrangência sobre o futebol, ao abordar as questões políticas, sociais econômicas e comportamentais em torno do esporte, costumam deixar de lado o essencial: o jogo em si, aquilo que faz dele uma atividade capaz de apaixonar bilhões de pessoas dos mais remotos cantos do mundo.
O futebol, tal como foi incorporado e praticamente reinventado no Brasil, tem muito a dizer, com sua linguagem nãoverbal, sobre algumas de nossas forças e fraquezas mais profundas, ajudando a ver sob outra luz questões centrais da nossa formação e identidade.
Lançando mão de um sofisticado instrumental crítico que bebe na filosofia, na sociologia, na psicanálise e na crítica estética, José Miguel Wisnik desce às minúcias do jogo da bola e de sua evolução ao longo das décadas.
Nas páginas deste ensaio, craques como Domingos da Guia, Pelé, Garrincha e Romário põem à prova idéias sobre o país de escritores como Machado de Assis, Mário e Oswald de Andrade, sociólogos como Gilberto Freyre, historiadores como Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Júnior. O futebol, em Veneno remédio, não é mero “reflexo” da sociedade, mas tampouco se desenvolve à margem dela. É, como mostra Wisnik, uma instância em que as linhas de força e de fuga do embate social e da construção do imaginário se apresentam de modo ao mesmo tempo claro e cifrado, como costuma acontecer com as expressões artísticas.
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Dica de Leitura: O Avaí, por Nelson Rodrigues.

Essa semana, Marquinhos deu duas declarações:
- Perder, a gente vai perder, como vencer também. Só não se pode achar: 'Ah, perder para o Inter tá bom, perder para o São Paulo tá bom'. A gente está aceitando as derrotas como se viesse jogar, com equipes que estão brigando pelo título, já com um resultado negativo.
- Muitas pessoas acham que a gente já vem para cá derrotado, e acaba isso entrando no inconsciente do atleta. Temos que parar para pensar desta forma
Se vocês querem conhecer um povo, examinem o seu comportamento na vitória e na derrota. Há poucos dias, o Brasil derrotou a Inglaterra no Estádio Mario Filho. Conviria comparar os dois comportamentos: o do Brasil vencedor e o da Inglaterra vencida…A Inglaterra é campeã do mundo e perdeu. Bastaram dois minutos do verdadeiro futebol brasileiro. Em 120 segundos, liquidamos o inimigo. Vejam vocês: - A Inglaterra fazia pose de melhor futebol do mundo. Os nossos jornais ou afirmavam ou, na pior das hipóteses, imaginavam que o futebol inglês era sim, o melhor do mundo. Por um funesto lapso, o brasileiro já nao se lembrava de que somos os bicampeões… Dirão vocês que, nas arquibancadas e gerais, o povo quis ajudar o escrete. O diabo é que o povo vaia sem querer, vaia automáticamente. Sim, o povo morreria de tédio e frustração se não pudesse vair qualquer coisa, inclusive o minuto de silêncio…Mas eu falo dos que, nas perpétuas, tribunas, cativas, torciam com o mais límpido, translúcido despudor, pelo inimigo. Falei com vários e os sujeitos estrebucharam de devoção: - Como jogam! como jogam!. Meu Deus é um futebolzinho bem aplicado e laborioso o dos ingleses, de uma disciplina tática feroz e uma base física medonha. SÓ…Terminou o primeiro tempo com o marcador de 1×0 para Inglaterra… A maioria dos locutores, principalmente os paulistas, continuava exigir a retirada de Tostão. E, no momento em que mais se exasperavam contra o maravilhoso jogador , Tostão é derrubado, deita-se na grama e faz o gol! Foi um assombro. Em pé, Tostão já é pequeno, pequeno e cabeçudo como um anão de Velazques. Imaginem agora deitado. Os ingleses ficaram indignados e explico: - um gol como o de Tostão desafia toda uma complexa e astuta experiência imperial! Um minuto depois, Tostão dá tres ou quatro cortes luminosíssimos e entrega a Jairzinho. Este põe lá dentro. Naquele momento ruía toda a pose inglesa. Era a vitória e pergunto: - como reagimos diante da vitória? Claro que o homem da arquibancada subiu pelas paredes como uma lagartixa profissional!. Mas pergunto: - e os outros? A imprensa, o que fez a imprensa? E o rádio? E a Tv? Deviam estar virando cambalhotas elásticas, acrobáticas. A Inglaterra pode não ter futebol, mas tem o título. É campeã do mundo. Portanto, vencemos o título. O grandes jornais não concederam ao feito brasileiro uma manchete de primeira página…Em São Paulo as Folhas acharam os ingleses “os melhores”. No Rio a mesma coisa. No subdesenvolvido, a imparcialidade não é uma posição crítica, mas uma sofisticação insuportável. Fingindo-se de justa, quase toda a crônica falada e escrita falsificou o jogo, isto é, descreveu um jogo que não houve.
Alguma semelhança?Vejam agora o comportamento dos ingleses. Ninguém faz um impeério sem um implacável cinismo. E os nossos adversários portaram-se com um admirável descaro. A Inglaterra foi um Bonsucesso. Dirão que estou fazendo um exagero caricatural. Mas, se o Bonsucesso tivesse assassinado a pauladas Maria Stuart, se jogasse a sombra de lord Nelson, lady Hamilton e Dunquerque, e se morasse no palácio de Buckingham - o Bonsucesso faria mais que os ingleses. Batidos em dois minutos, submetidos a um olé inédito e ignominioso, faltou aos nossos adversários a nobilíssima humildade da autocrítica. O técnico e os jogadores trataram a derrota como se vitória fosse; esvaziaram a humilhação de todo o dramatismo. Os brasileiros não são de nada. Tostão fez aquele gol espantoso. Deitado, enfiou a bola nas redes. Diante de tamanho feito os ingleses deviam admitir de vista baixa:- ” Aprendemos mais esta”. Nada disso e pelo contrário: acharam absurdo, indesculpável, que um jogador deitado fizesse um gol.
Com um cinismo de grande povo, o inglês inverte magicamente tudo em seu favor. Ao passo que o brasileiro, subdesenvolvido, inverte tudo em seu prejuízo…
Felizmente houve o “OLÉ! OLÉ! OLÉ!”. Saldanha mandava parar. Não queria que o inimigo crescesse na humilhação. Mas a loucura instalara-se no Estádio Mario Filho. Eram 80, 100 mil pessoas ébrias gritando olé. E súbito, da crudelíssima exibição, Gerson estica uma bola comprida para Pelé. O crioulão dispara e quase, quase entra com bola e tudo. Depois do jogo, a multidão saiu em plena embriaguez. Muitos dias já se passaram. E ainda sentimos a ressaca trinufal do olé.
